Resumo
A perturbação bipolar de início tardio é uma entidade clínica pouco prevalente, cuja identificação e tratamento apresentam desafios particulares na população geriátrica, sobretudo no diagnóstico diferencial. Apresenta-se o caso clínico de uma mulher de 68 anos, com antecedentes de perturbação depressiva, sem história de seguimento especializado, admitida em internamento psiquiátrico por episódio maníaco inaugural. A informação clínica foi obtida através de entrevistas e da revisão do processo hospitalar, com consentimento informado da doente para a publicação do artigo. A investigação complementar identificou défice de vitamina B12 e leucoencefalopatia ligeira a moderada, provavelmente de etiologia isquémica crónica, fatores possivelmente contributivos, mas não exclusivos, para o quadro clínico. Apesar da estabilização clínica em internamento, desenvolveu um episódio depressivo três meses após a alta, seguido de recaídas depressivas e um período de sintomas hipomaníacos no acompanhamento subsequente em consulta de psicogeriatria, condicionando uma gestão farmacológica complexa. A introdução de lamotrigina permitiu alcançar a remissão sustentada. A perturbação bipolar tipo I foi considerada o diagnóstico mais provável com base no acompanhamento psiquiátrico longitudinal, na avaliação neuropsicológica e no parecer de neurologia, obtidos em ambulatório — que excluíram demência —, bem como na heteroanamnese. Este caso sublinha a importância de uma abordagem diagnóstica abrangente e sistemática perante a mania de início tardio no idoso, salientando a exclusão de causas secundárias, bem como a relevância do acompanhamento especializado longitudinal e do suporte sociofamiliar no prognóstico. Este artigo visa contribuir para a sensibilização dos profissionais de saúde para as especificidades diagnósticas e terapêuticas desta apresentação clínica.Referências
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